QUANDO A IGREJA DEIXA DE SER HOSPITAL E VIRA TRIBUNAL
Por . Roberto Torrecilhas .

Muitos pastores estão se perdendo e achando que são a cereja do bolo de Jesus , se colocando como os bons da história e fazendo da igreja um comércio onde o que menos querem saber são dos perdidos.
A imagem da igreja como hospital nasce do próprio ministério de Jesus Cristo. Em Marcos 2:17, Ele afirma:
“Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes; eu não vim chamar justos, mas pecadores.”
Exegeticamente, o texto deixa claro que a missão central de Jesus não é a condenação moral, mas a restauração. O verbo grego usado para “chamar” (kaleō) indica convite, não acusação. Jesus se apresenta como médico espiritual, não como juiz inquisidor.
No entanto, ao longo da história — e com frequência no presente — a igreja institucional muitas vezes abandona essa vocação terapêutica e assume uma postura jurídica, transformando o púlpito em tribunal e os fiéis em réus permanentes.
A lógica do tribunal versus a lógica do Reino
Em João 8:1–11, no episódio da mulher flagrada em adultério, vemos dois modelos opostos:
Os fariseus operam segundo a lógica do tribunal: acusação, exposição pública e condenação.
Jesus age segundo a lógica do Reino: silêncio, confronto da hipocrisia e oferta de redenção.
Exegeticamente, o texto mostra que Jesus não nega a existência do pecado (“vai e não peques mais”), mas recusa a condenação como método. Ele desloca o foco do erro para a possibilidade de transformação.
Quando a igreja se torna tribunal, ela:
absolutiza normas,
relativiza a graça,
e ignora o processo de cura espiritual.
A parábola do fariseu e do publicano
Em Lucas 18:9–14, Jesus conta a parábola do fariseu e do publicano. O fariseu ora exaltando sua própria justiça; o publicano apenas pede misericórdia.
O texto conclui que o justificado é o que reconhece sua condição, não o que se julga moralmente superior. A exegese revela um princípio central: Deus resiste ao soberbo, mas concede graça ao humilde (cf. Tiago 4:6).
A igreja vira tribunal quando:
premia a aparência,
pune a fragilidade,
e confunde santidade com superioridade moral.
Graça não é permissividade, é processo
Um erro comum é opor graça e santidade. Biblicamente, isso é falso. Em Efésios 4:15, Paulo fala em “verdade em amor”. A exegese mostra que a verdade sem amor vira violência espiritual; o amor sem verdade vira omissão.
A igreja-hospital:
acolhe o ferido,
trata o pecado como doença a ser curada,
e caminha com o arrependido.
A igreja-tribunal:
expõe,
sentencia,
e abandona.
Conclusão exegética
Jesus confiou à igreja não o martelo do juiz, mas o bálsamo do bom samaritano (Lucas 10:33–35). Quando a igreja troca o hospital pelo tribunal, ela trai sua identidade cristológica e perde autoridade espiritual.
Onde há Espírito Santo, há convicção, não humilhação; arrependimento, não espetáculo; cura, não linchamento moral.
A igreja que julga pode até crescer em número, mas a igreja que cura permanece fiel ao Evangelho.

