QUANDO A FOME LEVA ALGUÉM AO SUPERMERCADO: ANTES DE JULGAR, É PRECISO ENTENDER

QUANDO A FOME LEVA ALGUÉM AO SUPERMERCADO: ANTES DE JULGAR, É PRECISO ENTENDER

Imagine uma mãe ou um pai entrando em um supermercado sem dinheiro no bolso, olhando para as prateleiras e pensando nos filhos que estão em casa esperando alguma coisa para comer.

A pessoa olha para os preços. Faz as contas. Tenta encontrar uma alternativa. Talvez tenha procurado trabalho durante o dia, pedido ajuda, recorrido a familiares ou simplesmente chegado ao limite depois de dias de dificuldades.

Então, diante da fome dos filhos, toma uma decisão desesperada: coloca alguns alimentos dentro de uma sacola e tenta sair do estabelecimento sem pagar.

É nesse momento que alguém percebe.

A segurança é acionada. A pessoa é abordada. Os produtos são recuperados. Talvez venha a polícia. Talvez venham as acusações, os olhares de reprovação e as palavras duras de quem, do lado de fora, acredita conhecer toda a história.

Mas existe uma pergunta que deveria ser feita antes de qualquer julgamento:

O que levou aquela pessoa a fazer isso?

Furtar é errado. A sociedade precisa de regras e o patrimônio de cada cidadão deve ser respeitado. Mas reconhecer que uma conduta é ilegal não significa abandonar a capacidade de enxergar o ser humano por trás dela.

Porque existem situações em que a realidade não cabe em uma ocorrência policial.

Imagine abrir a geladeira e encontrar apenas água.

Imagine uma criança perguntando: “Mãe, tem comida?”

Imagine responder que não.

Imagine ouvir o filho reclamar de fome e não ter sequer uma moeda para comprar um pão.

Para quem nunca passou por isso, pode parecer simples dizer: “Era só trabalhar.”

Mas a vida real não funciona assim.

Há pessoas desempregadas. Há famílias endividadas. Há trabalhadores que recebem salários insuficientes. Há pessoas que perderam tudo depois de uma doença, uma separação, uma demissão ou uma tragédia familiar.

E há pais que carregam diariamente a culpa de não conseguir colocar comida na mesa.

É muito fácil julgar quando a fome está longe da nossa casa.

É muito fácil apontar o dedo quando temos uma despensa abastecida.

É muito fácil falar em dignidade quando não precisamos escolher entre pagar uma conta e comprar comida.

É muito fácil dizer “eu jamais faria isso” quando nunca fomos colocados diante de uma situação extrema.

Isso não significa defender o furto.

Significa defender algo ainda maior: a dignidade humana.

Se uma pessoa é encontrada furtando comida porque seus filhos estão passando fome, talvez a primeira reação da sociedade não devesse ser apenas punição.

Talvez fosse necessário perguntar:

Essa família está recebendo algum tipo de assistência?

Há crianças passando fome naquela casa?

Existe algum familiar que possa ajudar?

Os serviços sociais do município foram acionados?

Existe uma maneira legal de impedir que aquela família volte para casa sem comida?

Em muitos casos, uma ocorrência pode terminar com a recuperação dos produtos e o encaminhamento da situação às autoridades competentes. Dependendo das circunstâncias, também podem existir consequências jurídicas diferentes. Mas, independentemente do caminho adotado pela Justiça, existe uma questão social que não pode ser ignorada.

Criança com fome não pode ser invisível.

E talvez essa seja a parte mais dolorosa dessa história.

Enquanto discutimos quem está certo ou errado, uma criança pode estar esperando um prato de comida.

Enquanto alguém grava a abordagem com um celular, uma família pode estar vivendo uma situação de desespero.

Enquanto as redes sociais transformam uma ocorrência em espetáculo, ninguém sabe quantas noites aquela pessoa passou preocupada com o que colocaria na mesa no dia seguinte.

Por isso, antes de condenar, é preciso conhecer.

Antes de humilhar, é preciso ouvir.

Antes de transformar alguém em criminoso aos olhos de todos, é preciso compreender as circunstâncias.

A sociedade não pode aceitar que o crime seja tratado como solução para a pobreza. Mas também não pode aceitar que a pobreza seja tratada como motivo para retirar de uma pessoa sua humanidade.

O supermercado pode recuperar os produtos.

A Justiça pode analisar o caso.

As autoridades podem investigar.

Mas quem vai olhar para as crianças?

Quem vai perguntar se elas comeram?

Quem vai oferecer ajuda para que aquela família não precise passar novamente pela mesma situação?

Essa é a pergunta que realmente deveria incomodar.

Porque combater a pobreza não significa justificar tudo o que é feito por desespero.

Significa impedir que o desespero seja a única alternativa.

Uma sociedade verdadeiramente humana não é aquela que simplesmente aponta o dedo para quem caiu.

É aquela que, sem abandonar suas leis e seus princípios, também estende a mão para descobrir por que aquela pessoa caiu e o que pode ser feito para ajudá-la a se levantar.

No fim, talvez a maior lição esteja justamente aí:

É muito fácil julgar a fome dos outros quando nunca sentimos o estômago vazio.

E, antes de perguntar “por que essa pessoa furtou?”, talvez devêssemos perguntar:

“Por que uma família chegou ao ponto de não ter o que comer?”

Essa pergunta não absolve ninguém automaticamente.

Mas pode nos tornar um pouco mais humanos.

TV CIRCUITO PAULISTA | JORNAL DIGITAL REGIONAL
ROBERTÃO CHAPA QUENTE — JORNALISTA

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Robertão Chapa Quente

• Diretor do Jornal Digital do Brasil • TV DIGITAL • Apresentador do Programa Chapa Quente

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