LIBERDADE DE IMPRENSA NA ERA DAS PLATAFORMAS DIGITAIS: QUEM DEFINE OS LIMITES?

LIBERDADE DE IMPRENSA NA ERA DAS PLATAFORMAS DIGITAIS: QUEM DEFINE OS LIMITES?

A experiência de mais de sete anos do Jornal Digital Regional em disputas judiciais envolvendo o Facebook levanta uma discussão sobre moderação de conteúdo, liberdade de imprensa e os impactos das decisões das grandes plataformas sobre veículos jornalísticos.

O exercício do jornalismo atravessa um período de profundas transformações. A expansão das plataformas digitais modificou a maneira como a informação é produzida, distribuída e consumida, mas também criou novos desafios para os veículos de comunicação.

Hoje, além das questões tradicionalmente enfrentadas pela imprensa — como responsabilidade editorial, direito de resposta, legislação e decisões judiciais — os veículos precisam lidar com regras estabelecidas por empresas privadas que controlam grande parte da distribuição do conteúdo na internet.

Essa realidade merece ser discutida.

UMA EXPERIÊNCIA DE MAIS DE SETE ANOS

O Jornal Digital Regional convive há mais de sete anos com questões judiciais envolvendo o Facebook, em uma trajetória que teve origem em uma reportagem produzida pelo veículo para alertar pais e responsáveis sobre o aumento de casos de abuso contra crianças.

A reportagem tinha caráter jornalístico e de alerta público. O objetivo era chamar a atenção das famílias para um problema grave e orientar a sociedade sobre a necessidade de proteção das crianças.

Segundo a experiência vivenciada pelo veículo, entretanto, o conteúdo foi interpretado pela plataforma de maneira diversa da intenção jornalística da publicação, tendo o veículo sido acusado de incentivar uma prática que a reportagem justamente procurava denunciar.

Na sequência, o Jornal Digital Regional enfrentou restrições na distribuição de seus conteúdos na plataforma.

Para um veículo cuja audiência depende também das redes sociais, uma alteração significativa na distribuição das publicações não é uma questão meramente técnica. Ela pode afetar diretamente o alcance das reportagens e, consequentemente, a capacidade de comunicação com o público.

O PODER DAS PLATAFORMAS

Esse episódio demonstra uma questão que ultrapassa a realidade de um único veículo.

As grandes plataformas digitais possuem sistemas próprios de moderação, políticas de conteúdo e mecanismos automatizados capazes de determinar se determinado material será distribuído, limitado ou removido.

Esses mecanismos são necessários para combater conteúdos ilegais e abusivos. Entretanto, quando decisões automatizadas ou interpretações equivocadas atingem conteúdo jornalístico legítimo, surge uma questão relevante:

quais mecanismos existem para garantir que o veículo de comunicação consiga contestar rapidamente uma decisão que considere injusta?

Essa pergunta é particularmente importante porque a dinâmica do jornalismo é imediata.

Uma notícia publicada hoje pode perder relevância amanhã.

Uma restrição que permanece durante semanas ou meses pode produzir consequências que uma decisão posterior dificilmente consegue reparar integralmente.

A MOROSIDADE JUDICIAL

Outro problema enfrentado pelo veículo é a duração das disputas judiciais.

O Poder Judiciário possui procedimentos e prazos próprios, e a complexidade dos processos pode fazer com que uma questão relacionada à atividade jornalística permaneça em discussão durante anos.

Para quem trabalha com comunicação, entretanto, o tempo possui uma dimensão diferente.

A audiência acontece diariamente.

O conteúdo é produzido diariamente.

A distribuição das notícias acontece diariamente.

Por isso, quando uma controvérsia envolvendo a atividade de um veículo permanece durante anos sem uma solução definitiva, o impacto pode ultrapassar a própria discussão jurídica.

A questão que fica é objetiva:

como reparar integralmente os efeitos de uma restrição de distribuição ocorrida anos antes, quando naquele período o veículo deixou de alcançar parte de seu público?

RESPONSABILIDADE JORNALÍSTICA E LIBERDADE DE IMPRENSA

Defender a liberdade de imprensa não significa defender a ausência de responsabilidade.

O jornalismo deve respeitar a legislação, apurar informações, ouvir os envolvidos, corrigir eventuais erros e preservar os direitos individuais.

Da mesma forma, liberdade de expressão não significa autorização para caluniar, difamar ou divulgar deliberadamente informações falsas.

Mas existe uma diferença fundamental entre responsabilizar um veículo por um conteúdo ilícito e impedir ou limitar a circulação de conteúdo jornalístico legítimo por uma interpretação inadequada de seu propósito.

É justamente nessa fronteira que o debate precisa acontecer.

O RECEIO DE PUBLICAR

Para quem trabalha há décadas com comunicação, existe ainda uma mudança perceptível no ambiente profissional.

A preocupação com processos, notificações, decisões judiciais e restrições nas plataformas passou a fazer parte da rotina de muitos profissionais da imprensa.

Isso exige equilíbrio.

O jornalista precisa conhecer seus limites legais, mas não pode transformar o medo das consequências em autocensura permanente.

Uma imprensa responsável não deve publicar acusações sem fundamento.

Mas também não pode deixar de investigar fatos relevantes simplesmente porque determinada reportagem poderá desagradar alguém.

UMA DISCUSSÃO QUE PRECISA SER FEITA

A experiência do Jornal Digital Regional não permite, por si só, afirmar que exista uma política deliberada de perseguição a determinados veículos ou uma suposta lista de jornais monitorados pelas plataformas.

Essa é uma hipótese que precisaria de evidências concretas.

O que podemos afirmar é que existem experiências, restrições e disputas que merecem ser analisadas com transparência, principalmente quando atingem veículos que exercem atividade jornalística.

A discussão, portanto, não deveria ser colocada apenas como uma disputa entre jornalistas e plataformas.

É uma discussão maior:

Quem estabelece as regras da circulação da informação na internet?

Quais são os critérios utilizados para restringir conteúdo jornalístico?

Existe transparência suficiente nesses procedimentos?

Há revisão humana quando uma decisão automatizada afeta um veículo de comunicação?

E qual é o mecanismo de reparação quando uma restrição posteriormente é considerada indevida?

São questões que interessam não apenas aos jornalistas, mas a toda a sociedade.

O COMPROMISSO COM O JORNALISMO

Depois de décadas dedicadas à comunicação, continuo acreditando que o papel do jornalista é informar, fiscalizar, questionar e dar ao cidadão acesso aos fatos relevantes.

Isso exige responsabilidade, mas também independência.

O Jornal Digital Regional continuará exercendo sua atividade dentro da legislação e dos princípios básicos do jornalismo profissional.

Não buscamos privilégios.

Não reivindicamos imunidade.

Reivindicamos o direito de exercer nossa profissão e de disputar, pelos meios legais, qualquer decisão que entendamos prejudicial ao exercício do jornalismo.

Mais de sete anos de disputas envolvendo uma reportagem que nasceu com o propósito de alertar pais sobre a proteção de crianças mostram que o debate sobre liberdade de imprensa, plataformas digitais e Justiça está longe de ser encerrado.

E talvez essa seja a principal questão:

EM UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA, A IMPRENSA PRECISA SER RESPONSÁVEL PELO QUE PUBLICA — MAS QUEM CONTROLA A CIRCULAÇÃO DA INFORMAÇÃO TAMBÉM PRECISA SER TRANSPARENTE E RESPONSÁVEL POR SUAS DECISÕES.

ROBERTÃO CHAPA QUENTE
JORNAL DIGITAL REGIONAL
TV CIRCUITO PAULISTA
GRUPO CIRCUITO PAULISTA DE COMUNICAÇÃO

Compartilhe!

Robertão Chapa Quente

• Diretor do Jornal Digital do Brasil • TV DIGITAL • Apresentador do Programa Chapa Quente

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.