Escassez para o povo, abundância nos gabinetes: a hipocrisia da crise da água

Escassez para o povo, abundância nos gabinetes: a hipocrisia da crise da água

Enquanto moradores enfrentam torneiras secas, banhos improvisados e rotinas interrompidas pela falta de água, há cenas que indignam: gabinetes públicos abastecidos com copos, caixas e garrafinhas de água mineral, como se a crise fosse problema exclusivo da população. A contradição expõe uma ferida antiga da gestão pública brasileira: a distância entre quem decide e quem sofre as consequências.

Em cidades onde o abastecimento falha por dias — às vezes semanas —, a resposta oficial costuma vir em notas genéricas, pedidos de “compreensão” e promessas futuras. No cotidiano real, porém, o cidadão paga a conta agora: compra galões, adapta a higiene, perde horas tentando resolver o básico. Já no poder, o conforto permanece intacto, protegido por contratos, privilégios e uma bolha de normalidade que ignora a realidade do lado de fora.

Não se trata apenas de água mineral sobre a mesa. Trata-se de exemplo, empatia e responsabilidade. Gestores que pedem sacrifício sem compartilhar o impacto perdem autoridade moral. Em crises, liderar é dividir o peso, adotar medidas simbólicas e práticas — reduzir consumo em prédios públicos, suspender mordomias, garantir transparência sobre contratos e prioridades.

A escassez hídrica exige planejamento, investimento e comunicação honesta. Exige também coerência. Quando o poder público não sente o aperto, a crise vira discurso. E discurso não mata a sede de ninguém.

A população tem razão em se revoltar. Água não é luxo; é direito básico. E governar não é blindar-se da realidade, mas enfrentá-la junto com quem mais precisa. Sem isso, sobra indignação — e a sensação amarga de que, para alguns, a crise nunca chega.

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Robertão Chapa Quente

• Diretor do Jornal Digital do Brasil • TV DIGITAL • Apresentador do Programa Chapa Quente

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