Jornalismo sério e responsável contra as fake news

Jornalismo sério e responsável contra as fake news

POR Erick Tedesco e Alezinha Roldan l A TARDE SP https://atarde.uol.com.br/brasil/noticias/1947455-jornalismo-serio-e-responsavel-contra-as-fake-news

A complexidade no debate sobre as fake news, que engloba desde punições judiciais contra calúnia e difamação a uma onda violenta de desinformação à sociedade, implica ainda no sucateamento do jornalismo, um ofício historicamente responsável por apurar e expor os fatos, sem julgamentos.

Nos extremos, o embate do protagonismo do jornalismo profissional contra o imediatismo tendencioso das fakes news, que recentemente tem sido pauta recorrente e assunto relevante em todo o mundo, já prova que as mídias tradicionais, como o jornal impresso, é ainda veículo com altíssima credibilidade.

Para piorar a situação, fake news muitas vezes são produzidas por jornalistas sem ética e com profissionalismo questionável, alguns com vida acadêmica ativa, propagando o mau exemplo entre os novos profissionais e colocando em xeque a competência na escolha de profissionais que dão aulas em instituições que deveriam ser centros de referência em ética. A missão do jornalismo na busca pela verdade tem vida longa.

Para tratar do assunto, A TARDE conversou com dirigentes de duas entidades nacionais de jornalismo: Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), e Maria José Braga, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Confira as entrevistas abaixo:

Ricardo Pedreira: “O bom jornalismo é o maior antídoto contra as notícias falsas”

Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ) (Foto: Divulgação)

A mudança do algoritmo do Facebook, de acordo com análises de especialistas em tecnologia da informação, apesar de justificar segurança na rede, ainda é branda o bastante para a difusão das fake news. Qual o entendimento da ANJ quanto o papel do jornalismo profissional no combate às publicação e divulgação de notícias falsas?

As notícias falsas acabam por valorizar o jornalismo profissional, que tem como missão a busca da verdade. Nesse ambiente de notícias falsas circulando pelas redes sociais, cabe aos jornais continuarem a apurar com rigor as informações, checar os fatos, contextualizá-los e editá-los de forma de informar os cidadãos da melhor forma possível. O bom jornalismo é o maior antídoto contra as notícias falsas.

Nesta eminente retomada de protagonismo do jornalismo impresso, qual seria um processo a curto prazo para potencializar – e capitalizar, em paralelo – o valor histórico das capas de jornais?

O fundamental é continuar com o jornalismo profissional, voltado para a busca da verdade, com apuração criteriosa e visando os interesses dos cidadãos.

O jornalismo tradicional, seja em impresso, rádio ou TV, deixou um importante legado à comunicação social no que diz respeito a relações entre profissionais da área. O senhor vê o sucateamento do mecanismo de busca de fontes confiáveis, quando não a total ausência, no caso de empresas que trabalham com fake news, como um agravante ao futuro do jornalismo corporativo?

Empresas que produzem notícias falsas devem ser punidas com o rigor da lei. O futuro do jornalismo é prosseguir em sua missão de buscar a verdade e levá-la aos cidadãos.

O senhor enxerga prepotência e amadorismo destas mídias de fake news ao desconsiderar, ignorar a tão recorrente ‘Errata’ do impresso?

O reconhecimento de erros é fundamental na prática jornalista. O bom jornalismo não existe sem o reconhecimento do erro e a correção do erro, de forma honesta e transparente. É fato de credibilidade.

Neste momento crucial da questão da informação, entre a credibilidade e a especulativa e/ou tendenciosa, o que a ANJ sugere às mídias tradicionais para se posicionar em prol da dignidade do ofício jornalístico?

A dignidade do ofício jornalístico está na busca da verdade, no rigor da apuração e na clareza da narrativa, entre outras qualidades que caracterizam a atividade.

Maria José Braga: “Veículos impressos continuam a ter grande importância”

Maria José Braga, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) (Foto: Divulgação)

Qual será a resposta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) perante jornalistas que divulgam fake news?

É preciso esclarecer que a FENAJ é uma entidade sindical e não um Conselho Profissional com poderes para fiscalizar o exercício da profissão. Ainda assim, a FENAJ e os Sindicatos de Jornalistas do país mantêm suas Comissões de Ética para averiguar possíveis casos de descumprimento do Código de Ética. A Comissão Nacional de Ética, mantida pela FENAJ, é uma instância de recurso. Primeiro tem de haver um processo na Comissão de Ética do Sindicato do Estado, onde o jornalista atua e depois, caso uma das partes tenha interesse, recurso à Comissão Nacional.

Que medidas tomar contra jornalistas que trabalham em uma instituição e atacam outra instituição de mídia por serem do concorrente?

O Jornalismo tem base teórica, técnicas e princípios éticos que devem ser respeitados pelos profissionais. E, obviamente, um “ataque” a uma instituição não se enquadra na prática do Jornalismo.

Qual a sanção perante jornalistas que envolvem questões pessoais para fazer fake news nas redes sociais, em se tratando de casos de tentativa de difamação com comprovação jurídica e criminal?

Se existe crime de opinião, mesmo que seja por meio das redes sociais, as penalidades estão previstas tanto no Código Penal quanto no Código Civil. Civilmente, quem cometer crimes de opinião pode ser condenado a fazer a reparação pública e a pagar multas de indenização pelo dano moral praticado.

Especialistas debatem se a mudança do algoritmo do Facebook contribui para a difusão das fake news, no sentido de forçar uma informação exagerada – e se precisar mentirosa – para ganhar likes a partir de compartilhamentos. Isso não é jornalismo profissional, evidente. Como, então, o jornalismo profissional pode ser combativo frente à esta dinâmica?

A melhor e mais eficiente forma de se combater a difusão de mentiras é fortalecer o Jornalismo. Não existe Jornalismo amador ou cidadão. Jornalismo requer conhecimento, dedicação e investimento. É preciso que tenhamos uma visão crítica das redes sociais.

Neste momento crucial da questão da informação, entre a credibilidade e a especulativa e/ou tendenciosa, o que a FENAJ sugere às mídias tradicionais para se posicionar em prol da dignidade do ofício jornalístico?

No Brasil, diante da popularização das redes sociais, muitas empresas tomaram o caminho errado: passaram a praticar um imediatismo, que é próprio das redes sociais, mas é incompatível com o Jornalismo. Penso que os meios de comunicação social que fazem Jornalismo precisam se distinguir e mostrar à sociedade que têm um papel importante para a vida democrática. Essa distinção somente pode ser feita a partir da qualidade da informação oferecida ao público. Então, as empresas jornalísticas precisam voltar a investir no Jornalismo.

Na internet, a palavra engajamento é recorrente para mostrar a força de uma matéria, de uma postagem, mas ainda assim é irrisória se comparada ao que representa, historicamente, o engajamento do jornalismo impresso na vida das pessoas. A credibilidade e a capacidade de envolver mentalidades são características atemporais e únicas do impresso?

Os veículos impressos continuam a ter grande importância e isto foi reforçado recentemente com o Facebook publicando pedidos de desculpas em grandes anúncios na mídia impressa nos Estados Unidos e Europa e creio que terão vida longa, ainda que sejam necessárias adaptações. Como exemplo de adaptação, eu cito as edições impressas que fazem a seleção, por importância, de todo material que já foi divulgado na versão para internet (computadores e dispositivos móveis). É preciso valorizar o Jornalismo como uma atividade humana essencial para a democracia e para a constituição da cidadania.

Jornal Digital do Brasil

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